O que amar quer dizer, Mathieu Lindon

“Os livros me protegem. Sempre posso me refugiar neles, imune a todo risco, como se eles criassem um outro universo, inteiramente à parte do mundo real. Tenho a sensação paradoxal de que, estando neles, nada me atinge, ao passo que eles me perturbam de forma doentia, vítima de uma sensibiidade extrema à escrita, como essas pessoas forçadas a deixar as unhas crescerem para não tocar, por distração, alguma coisa com o dedo, visto que seus dedos são sensíveis demais para suportar o menor contato. Assim como elas, eu deveria ler com as unhas, só que esses constantes abalos me dão imensa alegria. ” (13)

“Ele [Foucault] mudou a vida de muita gente, mas eu o sei baseado em fatos concretos, de um modo especial. Um homem está aqui, na minha vida, há tanto tempo, um homem que é mais do que um homem – que é um desses homens de quem queremos mostrar-nos dignos. Um homem tão fora do comum que não pode servir de exemplo, um homem que amei e que amo e que morreu, um homem que pode servir de amor – de que serve o amor? Um homem com um apartamento magnífico.” (23)

“E eu vou até o fundo, não entendo nada do que está acontecendo. Finalmente havia visto minha calamitosa adolescência infinita chegar ao fim para mergulhar na vida, compreendera que os seres humanos compartilhavam o mesmo planeta e tinha, assim, um certo grau de acessibilidade, que simplesmente a felicidade era possível e, de repente, é como se essa descoberta, ultrapassada, já não tivesse importância alguma. Daqui para a frente é preciso esperara menos da existência. Eu achava que havia atingido algo eterno, e esse eterno se esqueviara, Eu achava que era a vida e era a juventude.” (155)

O que amar quer dizer
(Ce qu'aimer veut dire)
Cosac Naify, 2014
Trad: Marília Garcia
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The sound and the fury, William Faulkner

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“‘Why wont you let him alone, so I can have some peace. Give him the box and please go on and let him alone.’
Caddy got the box and set it on the floor and opened it. It was full of stars. When I was still, they were still. When I moved, they glinted and sparkled. I hush.” (41)

“what have I done to have been given children like these Benjamin was punishment enough and now for her to have more regard for me her own mother I’ve suffered for her dreamed and planned and sacrificed I went down into the valley yet never since she opened her eyes has she given me one unselfish thought at times I look at her I wonder if she can be my child except Jason he has never given me one moment’s sorrow since I first held him in my arms I knew then that he was to be my joy and my salvation I thought that Benjamin was punishment enough for any sins I have committed I thought he was my punishment for putting aside my pride and marrying a man who held himself above me” (103)

“They went on along the street. Along its quiet length white people in bright clumps moved churchward, under the windy bells, walking now and the in the random and tentative sun. The wind was gusty, out of the southeast, chill and raw after the warm days.
‘I wish you wouldn’t keep on bringin him to church, mammy,’ Frony said. ‘Folks talkin’.
‘Whut folks?’ Dilsey said.
‘I hears em,’ Frony said.
‘And I knows whut kind of folks,’ Dilsey said. ‘Trash white folks. Dat’s who it is. Thinks he aint good enough fer white church, but nigger church aint good enough fer him.'” (290)

The Sound and the Fury
Vintage, 1990

A hora dos ruminantes, José J. Veiga

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Porque seu Júlio Barbosa era homem para isso. Pessoa correta estava ali, mas com ele ninguém brincava. Seu Júlio era desses que quando saem à rua limpam a cara de qualquer sorriso para desanimar brincadeiras, e quando dão bom-dia a alguém é como quem manda, e a pessoa passa o resto do dia preocupada, com medo de desobedecer. (27)

Manarairema já não se preocupava tanto com os homens, e quando alguém falava neles era com quem se refere a realidades familiares – o calor, doenças, a carestia – o acostumado, o absorvido. (36)

Quando alguém disse que no cartório tinha chegado notícia, a venda se limpou de arranco, todos saindo disparados beco acima, os mais velhos bufando atrás, resmungando contra a pressa dos outros, como se notícia fosse artigo de se esgotar com a procura.(44)

Com isso a oficina passou a ser frequentada por pessoas que imaginavam poder apanhar um pouco de coragem conversando com um homem corajoso. Apolinário achava aquilo muita falta do que fazer, falava pouco e dizia que não tinha feito nada de mais, apenas repelira um atrevimento, o que não é mais do que obrigação de quem quer ser respeitado; falava sem parar o trabalho, não queria que a tenda virasse mais uma venda de Amâncio. De mais a mais, muita gente estava encomendando trancas, trincos e espetos como se fossem grandes novidades, coisas nunca vistas antes. (89)

Numa cidade sem segredos as notícias pulam cerca, varam parede, passam de janela a janela, de boca a ouvido com a maior presteza em conversas descansadas. Em hora de sol quente, quando todo mundo se recolhe e lá fora só fica o sol tinindo nas pedras e no branco das paredes, se uma pessoa vai andando pela rua e de repente se abaixa para apanhar qualquer coisa no chão, no mesmo dia a cidade fica sabendo que Fulano achou um dinheiro ou um objeto de valor. Cada um vive exposto a olhares atentos que se fingem distraídos. Assim era também Manarairema. (94)

O relógio da igreja rangeu as engrenagens, bateu horas, lerdo desregulado. Já estavam erguendo o peso, acertando os ponteiros. As horas voltavam, todas elas, as boas, as más, como deve ser. (140)

Dados desta edição:
A hora dos ruminantes
José J. Veiga
Companhia das Letras
2015

Reze pelas mulheres roubadas, Jennifer Clement

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Agora vamos deixar você feia, minha mãe disse. E assobiou. Sua boca estava tão próxima que ela cuspiu perdigotos em meu pescoço. Senti cheiro de cerveja. No espelho, eu a vi passar o pedaço de carvão em meu rosto. É uma vida sórdida, murmurou.
Esta é minha primeira lembrança. Ela segurou um velho espelho rachado em frente ao meu rosto. Eu devia ter uns cinco anos. A rachadura fazia parecer que meu rosto havia partido em dois pedaços. A melhor coisa que você pode fazer no México é ser uma menina feia.
Meu nome é Ladydi Garcia Martínez e tenho pele morena, olhos castanhos, cabelo castanho e crespo e pareço com todo mundo que conheço.Quando eu era pequena, minha mãe me vestia de menino e me chamava de Menino. Contei a todo mundo que tive um menino, ela disse. Se fosse uma menina, eu seria robada. Se os traficantes de drogas ficassem sabendo que havia uma menina bonita por perto, eles invadiriam nossas terras em Escalades e a levariam. (9)

Quando o buraco estava bem fundo, nós empurramos o corpo para dentro e cobrimos de terra.
Eu olhei para as minhas mãos. A terra tinha entrado até o fundo das minhas unhas e não ia sair por mais que eu lavasse. Ela ia demorar semanas para sair.
Quando terminamos, minha mãe disse: Eu nunca achei que você tivesse nascido para enterrar um garoto morto junto comigo. Isso não foi previsto na minha vida. (40)

Depois dessa visita, minha mãe e eu fomos até a autoestrada na loja ficava aberta até tarde ao lado do posto de gasolina. Ela comprou meia dúzia de cervejas. Esse foi o dia em que ela parou de comer e só tomou cerveja.
Fiquei parada, imóvel, como quando um escorpião-branco, quase transparente, está na parede sobre a sua cama. Imóvel como quando você vê uma cobra enroscada astrás da lata de café. Imóvel como quando você espera o helicóptero derramar herbicida sobre o seu corpo ao voltar correndo da escola para casa. Imóvel como quando você ouve um SUV saindo da rodovia e ele soa quase como um leão, embora você nunca tenha ouvido o rugido desse animal. (50)

Eu me encostei na parede que antes estava coberta por um pôster de um arco-íris e diagramas de luz entrando e gotas de chuva saindo.
Eu também estou triste, José Rosa disse, e caminhou na minha direção.
Ele cheirava a chá-preto com leite e açúcar.
Ele pôs as mãos nos meus ombros e seus lábios nos meus.
José Rosa tinha gosto de janelas de vidro, cimento e elevadores para a lua. Suas mãos de vinte e três anos seguraram meu rosto de treze, e ele me beijou de novo. O beijo de arranha-céu foi meu. (71)

Ele só tocava Tchaikovsky. O lago dos cisnes flutuava pela nossa sala de aula, atravessava a floresta, passava sobre nossas casas, sobre as colinas cobertas de pés de papoula de maconha, descia até a rodovia escura e cheia de óleo, e atravessava a Sierra Madre, até o som dos cisnes dançando cobrir todo o país. (78)

Reze pelas mulheres roubadas
(Prayers for the stolen)
Jennifer Clement
Rocco
Trad: Léa Viveiros de Castro

A hora dos assassinos: Um estudo sobre Rimbaud, Henry Miller

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Rimbaud trocou a literatura pela vida; fiz o contrário. Ele fugiu das quimeras que tinha criado; eu as aceitei. Temperado pela loucura e desperdício da mera experiência, dei um basta e concentrei minhas energias na criação. Mergulhei no ato de escrever com o mesmo fervor e entusiasmo com que mergulhara na vida. (14)

Consta que Verlaine teria afirmado que Rimbaud nunca se entregou a ninguém, nem a Deus nem a qualquer ser humano. Até que ponto será verdade, cabe a cada um julgar por si próprio. A minha impressão é que ninguém quis entregar-se mais que Rimbaud; Na infância entregou-se a Deus, na juventude entregou-se ao mundo. Em ambos os casos, chegou à conclusão de que havia sido enganado e traído; retrai-se principalmente depois da experiência com a sangrenta Comuna, e a partir de então, o âmago de seu ser se mantém intacto, tenaz, inacessível. Nesse sentido lembra muito D. H. Lawrence, outro que muito teria o que dizer sobre isso, quer dizer, a respeito de preservar intacto o âmago de uma pessoa. (25)

Ser poeta era antigamente a vocação mais sublime; hoje é a mais fútil. E isso não porque ele mesmo não acredita mais no caráter divino de sua missão. Já vem cantando fora de tom há mais ou menos um século; por fim não conseguimos mais sintonizar. O assobio da bomba ainda tem sentido para nós, mas os delírios do poeta parecem disparates. E são um disparate se, de uma população mundial de dois bilhões de habitantes, apenas um punhado finge entender o que o poeta individual está dizendo. O culto da arte não preenche sua finalidade quando só existe para meia dúzia de homens e mulheres privilegiados. Então não é mais arte, mas a linguagem cifrada de uma sociedade secreta para a propagação de uma individualidade descabida. Arte é algo que incita as paixões humanas, que dá visão, lucidez, coragem e fé. (39)

Para mim, poeta é aquele homem capaz de alterar profundamente o mundo. Se houver um poeta desses vivendo entre nós, que se proclame. Que levante a voz! Mas terá que ser uma voz que possa abafar o estrondo da bomba. E que use uma linguagem que derreta corações humanos, que faça borbulhar o sangue. (40)

Pode-se ser aclamado como um grande rebelde, mas jamais amado. E para o rebelde, mais que para todos os homens, é necessário conhecer o amor e d[a-lo ainda mais que recebê-lo, e ainda mais do que dar, ser o amor. (49)

O traço comum mais marcante é a pureza de sua arte. A medida dessa pureza é dada em termos de sofrimento. Com a passagem do século essa espécie de angústia não parece mais possível. Entramos num clima novo,não forçosamente melhor, mas no qual o artista fica mais duro, mais indiferente. Seja quem for que agora passa por algo próximo dessa espécie de agonia, e a registra, é logo classificado de ‘inveterado romântico’. Não se espera mais que alguém sinta-se assim. (57)

Há os que procuram diretamente a morte que escolheram, seja da forma, de corpo, da cultura ou da alma; outros preferem sendas tortuosas. Há os que acentuam o drama desaparecendo da face da Terra, não deixando rastros; outros transformam suas vidas em espetáculo ainda mais inspirador que a confissão que representa sua obra. Rimbaud provocou deploravelmente a própria morte. Espalhou sua ruína por todos os lados, para que ninguém deixasse de compreender a absoluta futilidade de sua fuga.  (83)

‘A criação começa com uma dolorosa separação de Deus e a formação de uma vontade autônoma no intuito de que essa separação possa ser superada por um tipo de unidade maior do que a que originou o processo.’ (The mystic will, H. H. Brionton)
Aos dezenove anos de idade, Rimbaud desiste da quimera. ‘A sua Musa morreu a seu lado, no meio dos sonhos massacrados’, diz um biógrafo. Apesar disso, foi um prodígio que em três anos deu a impressão de esgotar os ciclos inteiros de arte. ‘É como se contivesse carreiras inteiras dentro de si’, diz Jacques Riviére. Ao que Matthew Josephson acrescenta: ‘De fato, a literatura a partir de Rimbaud emprenhou-se na luta para ignorá-lo’. Por quê? Porque, como diz esse último, ‘ele tornou a poesia perigosa demais’.” (84)

A hora dos assassinos: Um estudo sobre Rimbaud
(Time of the assassins)
Henry Miller
L&PM
Milton Persson

The book of tea, Kakuzo Okakura

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“When will the West understand, or try to understand, the East? We Asiatics are often appalled by the curious web of facts and fancies which has been woven concerning us. We are pictured as living on the perfume of the lotus, if not on mice and cockroaches. It is either impotent fanaticism or else abject voluptuousness. Indian spirituality has been derided as ignorance, Chinese sobriety as stupidity, Japanese patriotism as the result of fatalism. It has been said that we are less sensible to pain and wounds on account of the callousness of our nervous organisation!” (2)

“The white man has scoffed at our religion and our morals, but has accepted the brown beverage without hesitation. The afternoon tea is now an important function in Western society. In the delicate clatter of trays and saucers, in the soft rustle of feminine hospitality, in the common catechism about cream and sugar, we know that the Worship of Tea is established beyond question.” (4)

“There is a subtle charm in the taste of tea which makes it irresistible and capable of idealisation. Western humourists were not slow to mingle the fragrance of their thought with its aroma. It has not the arrogance of wine, the self-consciousness of coffee, nor the simpering innocence of cocoa.” (5)

“Tea with us became more than an idealisation of the form of drinking; it is a religion of the art of life. The beverage grew to be an excuse for the worship of purity and refinement, a sacred function at which the host and guest joined to produce for that occasion the utmost beatitude of the mundane.” (13)

“Our standards of morality are begotten of the past needs of society, but is society to remain always the same? The observance of communal traditions involves a constant sacrifice of the individual to the state. Education, in order to keep up the mighty delusion, encourages a species of ignorance. People are not taught to be really virtuous, but to behave properly. We are wicked because we are frightfully self-conscious. We nurse a conscience because we are afraid to tell the truth to others; we take refuge in pride because we are afraid to tell the truth to ourselves. How can one be serious with the world when the world itself is so ridiculous! The spirit of barter is everywhere. Honour and Chastity! Behold the complacent salesman retailing the Good and True. One can even buy a so-called Religion, which is really but common morality sanctified with flowers and music. Rob the Church of her accessories and what remains behind? Yet the trusts thrive marvelously, for the prices are absurdly cheap,—a prayer for a ticket to heaven, a diploma for an honourable citizenship.” (15)

“Why do men and women like to advertise themselves so much? Is it not but an instinct derived from the days of slavery?” (16)

“The Sung allegory of the Three Vinegar Tasters explains admirably the trend of the three doctrines. Sakyamuni, Confucius, and Laotse once stood before a jar of vinegar—the emblem of life—and each dipped in his finger to taste the brew. The matter-of-fact Confucius found it sour, the Buddha called it bitter, and Laotse pronounced it sweet.
The Taoists claimed that the comedy of life could be made more interesting if everyone would preserve the unities. To keep the proportion of things and give place to others without losing one’s own position was the secret of success in the mundane drama. We must know the whole play in order to properly act our parts; the conception of totality must never be lost in that of the individual. This Laotse illustrates by his favourite metaphor of the Vacuum. He claimed that only in vacuum lay the truly essential. The reality of a room, for instance, was to be found in the vacant space enclosed by the roof and the walls, not in the roof and walls themselves. The usefulness of a water pitcher dwelt in the emptiness where water might be put, not in the form of the pitcher or the material of which it was made. Vacuum is all potent because all containing. In vacuum alone motion becomes possible. One who could make of himself a vacuum into which others might freely enter would become master of all situations. The whole can always dominate the part.
These Taoists’ ideas have greatly influenced all our theories of action, even to those of fencing and wrestling. Jiu-jitsu, the Japanese art of self-defence, owes its name to a passage in the Tao-teking. In jiu-jitsu one seeks to draw out and exhaust the enemy’s strength by non-resistance, vacuum, while conserving one’s own strength for victory in the final struggle. In art the importance of the same principle is illustrated by the value of suggestion. In leaving something unsaid the beholder is given a chance to complete the idea and thus a great masterpiece irresistibly rivets your attention until you seem to become actually a part of it. A vacuum is there for you to enter and fill up the full measure of your aesthetic emotion.” (16-17)

“Chikamatsu, our Japanese Shakespeare, has laid down as one of the first principles of dramatic composition the importance of taking the audience into the confidence of the author. Several of his pupils submitted plays for his approval, but only one of the pieces appealed to him. It was a play somewhat resembling the Comedy of Errors, in which twin brethren suffer through mistaken identity. ‘This,’ said Chikamatsu, ‘has the proper spirit of the drama, for it takes the audience into consideration. The public is permitted to know more than the actors. It knows where the mistake lies, and pities the poor figures on the board who innocently rush to their fate.'” (31)

“Said they, ‘Each piece is such that no one could help admiring. It shows that you had better taste than had Rikiu, for his collection could only be appreciated by one beholder in a thousand.” Sorrowfully Enshiu replied: “This only proves how commonplace I am. The great Rikiu dared to love only those objects which personally appealed to him, whereas I unconsciously cater to the taste of the majority. Verily, Rikiu was one in a thousand among tea-masters.'” (33)

The book of tea
Kakuzo Okakura
Domínio Público | Projeto Gutenberg

Otelo, William Shakespeare

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Imagens-Ebooks-DLD-b7db0db9875a015b28a032bb7f409200Doge – Deixe-me falar como o senhor mesmo falou, e decretar uma sentença que, como alavanca ou degrau, pode auxiliar esse casal de apaixonados a granjear sua simpatia. Quando o irreparável está feito, cessam-se as dores vendo-se que poderia ter sido pior aquilo que no fim confiou-se em um desejo ardente. Lamentar um infortúnio que está morto e enterrado é dar o passo certo na direção de atrair para si novo infortúnio. Há sempre aquilo que não pode ser preservado quando o Destino tem as rédeas na mão, mas a Paciência encarrega-se de fazer do prejuízo uma zombaria. Aquele que foi roubado, quando sorri, furta algo do ladrão, e rouba a si mesmo quem se consome em mágoa inútil.
Brabâncio – Mas então, deixe-se o Turco de Chipre enganar-nos… Não estaremos perdendo enquanto soubermos sorrir! Aceitar bem a sentença de um juiz é aceitar tão-somente o cândido conforto que dela se depreende. Mas aceitar tanto a sentença quanto a desgraça é aceitar que se terá pouca paciência para pagar por uma queixa legal. Essas sentenças, sejam elas para bajular ou para atormentar, poderosas para os dois lados, são equívocas. Todavia, palavras são palavras. Até o dia de hoje jamais ouvi dizer que um coração machucado se consertasse pelo ouvido. Humildemente eu vos suplico: tratemos de prosseguir com os assuntos do Estado.” (18)

Entra o Bobo.
Bobo – Ora, senhores, seus instrumentos por um acaso estiveram em Nápoles, para falarem assim pelo nariz?
1o. Músico – O que diz, senhor? O que diz?
Bobo – Eu pergunto: são esses instrumentos de sopro?
1o. Músico – Mas sim, são de sopro, realmente.
Bobo – Ah, mas então tem coisas no ar, mais do que sofro.
1o. Músico – Que coisas, senhor, há no ar mais do que sopro?
Bobo – Tudo, senhor, de interessante e surpreendente, que nos sopram aos ouvidos. Mas, senhores, vejam, dinheiro para vocês; o general tanto aprecia sua música que, pela graça divina, encontra-se desejoso de não mais ouvi-los tocando esse ruído.” (44)

Otelo
William Shakespeare
L&PM, 1999
Beatriz Viégas-Faria

Judas, Amós Oz

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13766_g“Tem vezes que a marcha da vida se reduz, gaguejante como água que escorre da calha e vai correndo e abrindo um pequeno sulco na terra do quintal. Essa concorrente é retida por um montículo de terra, absorvida, acumula-se por um instante numa pequena poça, hesita, vai tateando e corroendo o montículo de terra que lhe obstrui o caminho ou abre uma passagem por baixo dele. Por causa desse obstáculo às vezes a água se divide e continua em seu caminho em três ou quatro finos filamentos, como uma teia formada por rastros de insetos. Ou desiste, e é engolida pela poeira do quintal.” (39)

“E havia vezes em que o velho falava, como costumava falar, longamente, com satisfação e com energia sobre o medo obscuro que a figura do judeu errante inspira desde tempos imemoriais na imaginação cristã; pois não é qualquer um que pode assim não mais levantar-se prazenteiro pela manhã, escovar os dentes, tomar uma xícara de café e matar Deus! Para matar uma divindade, o matador precisa ser ainda mais forte do que o deus e também tem de ser de uma iniquidade e perversidade sem limites. Quem matou Jesus, o nazareno, uma divindade afável e que irradia amor, era mais forte que ele, e também ardiloso e repugnante. E esses malditos matadores de Deus só são capazes de ser matadores de Deus sob a condição de trem se alimentado em fontes monstruosas de moder e de madlade. E é assim que são vistos os judeus nos porões da imaginação de um odiador de judeus. Somos todos Judas Iscariotes. Mesmo depois de oitenta gerações, somos todos Judas Iscariotes. Mas a verdade, meu jovem amigo, a verdade verdadeira é a que vemos  aqui em Erets Israel, bem diante de nossos olhos: tal como o judeu antigo, assim também até mesmo o novo judeu que aparentemente cresceu aqui, não é nada forte nem perverso, mas cobiçoso, sofisticado, ruidoso, assustado e cheio de suspeitas e temores. Ora, Chaim Weizmann disse uma vez, em seu desalento, que um Estado judeu nunca poderia existir porque há nisso uma contradição: se for um Estado, não vai ser judeu, e se for judeu, certamente não será um Estado. Como está escrito aqui entre nós: é um povo que se parece com um burro.” (51)

“’Os judeus que escreveram esse texto de controvérsia com certeza o escreveram sob a profunda influência do sofrimento causado pelas perseguições e opressões por parte dos cristãos.’
‘Judeus como esses’, disse Wald com um riso de nojo, ‘judeus como esses, se tivessem o poder e o domínio, com certeza iriam perseguir os que acreditam em Jesus e os torturariam barbaramente, talvez não menos do que os cristãos que odeiam Israel perseguiram os judeus. O judaísmo e o cristianismo, e também o Islã, destilam todos eles o néctar da graça, da justiça e da compaixão, mas só enquanto não têm em mãos algemas, grades, poder, porões de tortura e cadafalsos. Todas essas crenças,e  mais aquelas que nasceram nas últimas gerações e continuam até hoje a enfeitiçar corações, todas vieram para nos salvar e rapidamente acabaram derramando nosso sangue. Eu, por mim, não acredito em tikun-olam. Oran, não acredito em nenhuma forma de conserto do mundo. Não porque o mundo esteja a meu ver consertado, por certo não está, o mundo é torto e triste e cheio de sofrimento, mas todo aquele que se dispo~e a arranjá-lo logo está imerso em rios de sangue. Venha, agora vamos tomar juntos um copo de chá e deixar de lado essas porcarias que você me trouxe hoje. Se ao menos um dia desaparecessem do mundo todas as religiões e todas as revoluções, eu lhe digo – todas, até a última delas, se exceção -, vai haver muito menos guerras no mundo. O homem, escreveu uma vez Immanuel Kant, não é mais do que um toco de madeira torto e áspero por natureza. E não devemos tentar aplainá-lo, pois podemos rachá-lo até o pescoço, mergulhando em sangue. Ouça a chuva caindo lá fora. Daqui a pouco vamos ouvir o noticiário.’” (81-82)

“Eu, meu caro, não acredito no amor de todos por todos. A quantidade de amor é muito reduzida. Um homem pode amra cinco homens e mulheres, talvez dez, às vezes até quinze. E mesmo assim, só raramente, Mas se vem um homem e me declara que ele ama todo o Terceiro Mundo, ou que a América Latina, ou que ama o sexo feminino, isso não é amor, mas pura fraseologia. Ditos da boca para fora. Palavra de ordem. Não nascemos para amar mais do que um pequeno punhado de pessoas. O amor é um evento íntimo, estranho e cheio de contradições, pois mais de ujma vez nós amamos alguém por amor  a nós mesmos, por egoísmo, por cupidez, por desejo físico, por vontade de dominar o amaod e subjulgá-l, ou, ao contrário, devido uma espécie de desejo de ser dominado pelo objeto de nosso amor, e geralmente o amor se parece muito com o ódio e é mais próximo dele do que imagina a maioria das pessoa.” (157)

Judas
(HABSSORÁ AL PI IEHUDÁ ISH KERAIOT)
Amós Oz
Companhia das Letras, 2014
Paulo Geiger

Passarinho, Crystal Chan

Passarinho-Crystal-ChanEm todo caso, eu não contaria sobre minhas visitas ao penhasco, porque os adultos não ouvem o que as crianças têm a dizer. Não de verdade. Se ouvissem, olhariam nos meus olhos quando eu falo, olhariam de verdade, sincera e profundamente, dispostos a escutar o que quer que saísse da minha boca, prontos para qualquer coisa. Não conheço nenhum adulto que já tenha olhado para mim desse jeito, nem mesmo meus pais. Por isso, as coisas boas, tudo de bom que já vi e presenciei, incluindo as idas ao penhasco, eu guardo para mim mesma. Minha família não faz parte disso. (9)

Quase contei a ele que eu queria ser geóloga quando crescesse, mas acabei não contando. Em vez disso, fiquei quieta. Se você entrega muito de si a alguém, rápido demais, essa pessoa pode simplesmente ir embora e levar tudo. E quando se trata de alguém como eu, que já não tenho muito de mim, bem, é preciso cuidado redobrado. (12)

Mordi o lábio. Quem eram aquelas pessoas? Onde estava toda aquela alegria,  e onde ela se esconde depois de abandonar uma família? Será que vai para outra família, funde-se à terra ou se dissolve no ar como a fumacinha de nossa respiração no inverno? E se a alegria não vai embora, então por que não sobrou nem um pouco para mim? (25)

No caminho para casa, não pude deixar de pensar que havia muito mais do que uma centelha de tristeza quando John falara em ir para o espaço e nunca voltar. Conforme fui me aproximando de casa, meus pensamentos se voltaram para vovô, e pensei em como ele certamente estaria lá, invisível e esperando. Duas pessoas tristes. Mas por que vovô se trancaria no quarto daquele jeito? Por que simplesmente não falava sobre o que o incomodava para se sentir melhor? Bem, talvez não falar, mas… bem, se expressar de alguma maneira. (130)

Ficamos assim por muito tempo, no quarto quentinho e reconfortante, com nosso coração escancarado. Aprendi, naquele momento, que corações não usam palavras para falar, ao contrário do que dizem os filmes e as músicas. Acho que precisam de muito mais espaço. Enfim, tudo que sei é que meu coração estava com uma febre alta e terrível naquele dia, e que, no silêncio, vovô trouxe consigo uma chuva refrescante. (161)

Não gosto de chorar na frente das pessoas, porque isso revela os buracos que temos por dentro. Acho que, com tanto choro nos últimos dias, eu tinha mais buracos do que pensava. (181)

Foi então que percebi que, de muitas formas, os lugares são como as pessoas: pensam nas pessoas queridas quando estão longe, esperam elas voltarem e ficam felizes quando isso acontece. (186)

Passarinho
(Bird)
Crystal Chan
Intrínseca, 2004
Thaís Paiva

Americanah, Chimamanda Ngozi Adichie

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9780307455925_custom-97ae05854ecd10c24f2933b3d23a38ba9d8b9db7-s6-c30“You are the absolute love of my life,” he’d written in her last birthday card—and yet there was cement in her soul. It had been there for a while, an early morning disease of fatigue, a bleakness and borderlessness. It brought with it amorphous longings, shapeless desires, brief imaginary glints of other lives she could be living, that over the months melded into a piercing homesickness. (7)

Ifemelu opened her novel, Jean Toomer’s Cane, and skimmed a few pages. She had been meaning to read it for a while now, and imagined she would like it since Blaine did not. A precious performance, Blaine had called it, in that gently forbearing tone he used when they talked about novels, as though he was sure that she, with a little more time and a little more wisdom, would come to accept that the novels he liked were superior, novels written by young and youngish men and packed with things, a fascinating, confounding accumulation of brands and music and comic books and icons, with emotions skimmed over, and each sentence stylishly aware of its own stylishness. She had read many of them, because he recommended them, but they were like cotton candy that so easily evaporated from her tongue’s memory (14)

She ended every sentence she spoke to his uncles with “sir.” She put ribbons in the hair of his cousins’ daughters. There was something immodest about her modesty: it announced itself. (34)

He had scolded Ifemelu as a child for being recalcitrant, mutinous, intransigent, words that made her little actions seem epic and almost prideworthy. (58)

She wished, fleetingly, that her mother was not her mother, and for this she felt not guilt and sadness but a single emotion, a blend of guilt and sadness (63)

With him, she was at ease; her skin felt as though it was her right size. She told him how she very much wanted God to exist but feared He did not, how she worried that she should know what she wanted to do with her life but did not even know what she wanted to study at university. It seemed so natural, to talk to him about odd things. She had never done that before. The trust, so sudden and yet so complete, and the intimacy, frightened her. (73)

(…) she had begun, finally, to grasp the power books had over him. His longing for Ibadan because of “Ibadan” had puzzled her; how could a string of words make a person ache for a place he did not know? But in those weeks when she discovered the rows and rows of books with their leathery smell and their promise of pleasures unknown, when she sat, knees tucked underneath her, on an armchair in the lower level or at a table upstairs with the fluorescent light reflecting off the book’s pages, she finally understood. (166)

Ifemelu watched them, so alike in their looks, and both unhappy people. But Kimberly’s unhappiness was inward, unacknowledged, shielded by her desire for things to be as they should, and also by hope: she believed in other people’s happiness because it meant that she, too, might one day have it. Laura’s unhappiness was different, spiky, she wished that everyone around her were unhappy because she had convinced herself that she would always be. (203)

On an unremarkable day in early spring—the day was not bronzed with special light, nothing of any significance happened, and it was perhaps merely that time, as it often does, had transfigured her doubts—she looked in the mirror, sank her fingers into her hair, dense and spongy and glorious, and could not imagine it any other way. That simply, she fell in love with her hair. (264)

In describing black women you admire, always use the word “STRONG” because that is what black women are supposed to be in America. If you are a woman, please do not speak your mind as you are used to doing in your country. Because in America, strong-minded black women are SCARY. And if you are a man, be hyper-mellow, never get too excited, or somebody will worry that you’re about to pull a gun. When you watch television and hear that a “racist slur” was used, you must immediately become offended. Even though you are thinking “But why won’t they tell me exactly what was said?” Even though you would like to be able to decide for yourself how offended to be, or whether to be offended at all, you must nevertheless be very offended. (274)

OBS: não sei a razão, mas durante a outra metade do livro eu não marquei mais nenhuma citação; acho que nada mais me chamou especialmente a atenção, ou fiquei um pouco desatenta. Mas, acreditem, o livro TODO é ótimo. 🙂

Americanah
 Chimamanda Ngozi Adichie
 Anchor Books, 2003